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O auge e a queda de Malhação: como a novela moldou uma geração

Alyah Gomes Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Malhação foi uma novela brasileira voltada para o público adolescente, exibida pela TV Globo de 1995 a 2020. Ao longo de seus 25 anos no ar, Malhação conquistou a audiência com personagens divertidos e tramas inusitadas, tornando-se parte da rotina de milhares de jovens brasileiros. Em 2020, no entanto, a novela se despediu das telas, deixando seu legado e saudades em quem acompanhou uma — ou várias — de suas temporadas.

Origem e Formato Inovador

Um fato pouco conhecido sobre a novela, é que ela foi inspirada pela série televisiva Confissões de Adolescentes, exibida pela TV Cultura em 1994. Confissões de Adolescentes foi uma produção nacional pioneira ao abordar temas necessários como relacionamentos, sexualidade e dependência química, a fim de conscientizar a população adolescente. 

Em resposta ao sucesso da série, a TV Globo lançou Malhação, uma novela com uma proposta semelhante: dialogar com adolescentes e abordar temas considerados tabus na época, mas com uma abordagem diferente, inicialmente mais leve e descontraída.

Inspirada no formato das Soap Operas norte-americanas, a intenção era adotar um estilo de continuidade e garantir o envolvimento do público jovem, mantendo o mesmo cenário principal, mas renovando o elenco a cada temporada.

Outro fato curioso, é referente a origem do nome da novela. Durante a década de 90, as academias ganhavam imensa popularidade por todo o mundo, e ali Andréa Maltarolli e Emanuel Jacobina, idealizadores de Malhação, encontraram o cenário perfeito para criar um universo teen, que se tornaria palco para histórias de drama, comédia e romance durante a programação vespertina da TV Globo. A partir disso, surgiu o icônico título: Malhação

Como Malhação moldou uma geração?

Após a estreia em abril de 1995, a novela obteve grande sucesso! Surpreendentemente, o formato inédito foi muito bem aceito pelo público, atraindo cada vez mais audiência. Logo, a obra foi renovada por diversas temporadas: novas histórias e personagens, mas sempre preservando a essência da novela — capaz de conectar-se com os corações dos jovens, que viam nas telas retratos de si próprios. 

Malhação atravessou décadas e, ao marcar presença nos fins de tarde de toda uma geração, deixou de apenas refletir o estilo e o comportamento da adolescência, passando também a influenciá-la, lançando modas e ditando tendências no mundo teen.

Personagens que lançaram moda em Malhação

Muitas personagens de Malhação ainda são lembradas pela maneira autêntica e ousada de se vestir, que marcou época e influenciou tendências no mundo da moda. A seguir, confira alguns exemplos de figuras icônicas que deixaram sua marca no universo fashion nacional.

Érica, a vilã da temporada de 1999 chamava atenção por utilizar sempre um pingente adesivo na testa. O bindi, adereço normalmente usado na Ásia Meridional, virou febre entre as adolescentes brasileiras, que inspiradas pela personagem, logo começaram a compor seus looks com o acessório.

Miyuki, de Malhação 2004, cativou as jovens não apenas pelo seu charme único, mas também pela maneira original como expressava sua personalidade através de seu estilo. Sempre com roupas coloridas e estampadas, Miyuki popularizou ainda mais as peças e acessórios de crochê no Brasil.

Em Malhação: Intensa como a Vida (2012), Lia e Fatinha protagonizavam dentro e fora das telas, inspirando a moda jovem com seus looks distintos que conquistavam diferentes audiências. Enquanto Fatinha popularizava o combo mini saia + boné, Lia trazia de volta o estilo Grunge dos anos 90, tornando novamente febre as flanelas e camisas de bandas, acompanhadas por mechas coloridas e as famosas “toucas caidinhas”. 

Trilha sonora da adolescência

Se você perguntar para qualquer pessoa que viveu a adolescência entre os anos 2000 e 2010 quais bandas fizeram parte dessa fase de sua vida, é quase certo que nomes como CPM 22, Charlie Brown Jr. e NX Zero serão citados. Bandas como essas, não apenas embalaram momentos inesquecíveis, como também ajudaram a traduzir os sentimentos turbulentos da juventude — e Malhação foi a ponte perfeita entre esses artistas e o público adolescente.

A necessidade de reinventar-se

A partir do ano de 2007, a audiência de Malhação começou a cair gradualmente, registrando em média 24 pontos na TV Globo. Logo, os roteiristas perceberam que novas gerações exigiam novas narrativas e abordagens. À medida que o público adolescente envelhecia, Malhação precisava se reinventar; já que, as preferências mudavam e tornavam-se cada vez mais difíceis de acompanhar. 

O avanço da internet pelo mundo definitivamente foi um divisor de águas para a televisão. Com o crescimento das redes sociais, do YouTube e, posteriormente, do streaming, o público jovem passou a consumir entretenimento de forma rápida e independente. A TV, com uma grade fixa, e as novelas com seu ritmo lento, começaram a perder espaço, sendo vistas como ultrapassadas para as novas gerações.

Entretanto, os criadores de Malhação não se deixaram desanimar, buscando novas maneiras de atrair a nova geração. A partir de 2010, as temporadas ganharam subtítulos, como “Conectados”, “Sonhos” e “Intensa como a Vida”, em uma tentativa de se aproximar do formato das séries televisivas e acompanhar as tendências do momento. Ainda assim, a perda da popularidade era inevitável: a audiência continuava em queda e atingiu sua pior média em 2013, com apenas 14 pontos.

Mesmo com o fim se aproximando, algumas temporadas se destacaram e deixaram sua marca. Certamente, a mais notável da década foi Malhação: Viva a Diferença (2017), que conquistou o coração da nova geração e, pela primeira vez em anos, fez a audiência da novela subir novamente — voltando à casa dos 20 pontos.

Escrita por Cao Hamburguer, Malhação: Viva a Diferença abordou de maneira revigorante e sem recorrer a clichês, abordando temas atuais, como gravidez na adolescência, masculinidade tóxica, violência doméstica, preconceito e diversidade. A temporada foi a primeira a trazer uma protagonista dentro do espectro autista e também um casal lésbico para as telas, no horário das 17h30, o que gerou reações tanto positivas quanto negativas do público.

Sem dúvidas, a temporada de 2017 cumpriu de forma brilhante sua proposta: criar uma novela que celebrasse as diferenças e se tornasse um palco para discussões sobre orientação sexual, classes sociais e identidade cultural. Ao abrir espaço para questões que já eram do interesse dos jovens da época, Malhação: Viva a Diferença conseguiu fazer com que muitos adolescentes se desconectassem da internet e voltassem sua atenção para a TV brasileira, onde novamente, se viam representados. 

O fim de Malhação

Infelizmente, o sucesso de Viva a Diferença não se estendeu pelos anos seguintes e a audiência da emissora voltou a cair. Em 2019, Malhação: Toda Forma de Amar registrou uma média de 18 pontos e foi alvo de muitas críticas em relação ao seu roteiro. 

Contudo, a TV Globo ainda planejava dar continuidade à Malhação, e uma nova temporada já estava em desenvolvimento. Intitulada Malhação: Eu Quero é Ser Feliz, a produção chegou a iniciar as gravações, mas foi interrompida devido à pandemia de Covid-19. Inicialmente prevista para estrear em 2020, a temporada foi sendo adiada até que fosse, eventualmente, cancelada. Com isso, a novela que por décadas moldou o imaginário de gerações de jovens brasileiros chegou oficialmente ao fim.

Eterno legado

Mais do que uma simples novela teen, Malhação se tornou um marco cultural da televisão brasileira. Ao longo de suas duas décadas e meia no ar, Malhação serviu como uma verdadeira escola para a teledramaturgia da Globo, abrindo portas para jovens atores que estrearam na produção e logo migraram para o horário nobre. Além de servir como espelho e, muitas vezes, como guia para toda uma geração de adolescentes brasileiros. 

O legado de Malhação está na forma como ousou tratar de temas sensíveis, como preconceito, sexualidade, abuso de substâncias, identidade e saúde mental, em um horário tradicionalmente reservado ao entretenimento leve. Ainda que tenha chegado ao fim, Malhação permanece viva na memória afetiva e nos corações de quem cresceu assistindo — e, principalmente, na história da televisão brasileira.

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O artigo acima foi editado por Gabriela Belchior.

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Alyah Gomes

Casper Libero '28

Journalism student at Casper Libero. Passionate about music, literature and cinema :)