No dia 20 de janeiro de 2025, Donald John Trump assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos da América, sendo o primeiro presidente condenado do país. Ainda que em suas duas campanhas eleitorais discursos autoritários e preconceituosos foram largamente empregados, Trump teve os votos de 312 colégios eleitorais a seu favor.
Para compreender como o Governo Trump se desloca cada vez mais para uma via de extrema-direita, é necessário entender as características de um regime conduzido por ideias desse espectro político.
Nacionalismo
Em primeiro plano, movimentos de uma direita radical tem como ideal o nacionalismo exagerado. O sentimento de pertencimento a uma nação e o amor por ela é válido. Mas a convicção de um ultranacionalismo é perigosa a partir da criação de inimigos externos ao seu país, muitas vezes com o discurso de superioridade sobre outras culturas e populações. Um governo ultranacionalista tem como característica grandes esforços para a expulsão, opressão e proibição de imigrantes, usando até vias militares.
Um exemplo, ainda na campanha eleitoral de Trump, que demonstra ideais que moldam a extrema-direita é o slogan “Make America Great Again” (MAGA), no qual dois elementos são evidenciados: o nacionalismo e a tentativa de reerguer a pátria. O republicano coloca a ideia de nação como algo divino, um mito, que está ameaçado e deve ser protegido de forma fervorosa.
O ufanismo, conhecido por ultranacionalismo, é evidente nos discursos e ações políticas de Donald Trump. Ainda no começo do seu primeiro mandato (2017-2021), o presidente assinou uma ordem que proibia que pessoas da Síria, Iraque, Irã, Líbia, Sudão e Iêmen entrassem nos Estados Unidos, o que reiterou suas falas preconceituosas contra a religião muçulmana.
No seu governo atual, o republicano apresenta declarações fortes sobre a imigração ilegal e declara emergência nacional na fronteira entre os Estados Unidos e México. No seu primeiro discurso como presidente em 2025, ele afirma: “A primeira coisa que vou fazer é declarar estado de emergência na fronteira (com o México). Toda entrada ilegal será imediatamente interrompida e começaremos o processo de retornar milhões e milhões de ‘aliens’ ilegais de volta para os lugares que vieram. Vamos restaurar a minha política de ‘fiquem no México’”
Ao se referir aos imigrantes como aliens, Trump cita a lei de 1798, chamada Alien and Sedition Acts (Atos de Alienígena e Sedição), em que sedição era uma rebelião contra o governo regente e “alien” era o estrangeiro na época. Nas redes sociais, uma trend no aplicativo Tik Tok viralizou ao redor dos Estados Unidos, em que pessoas mostram os familiares considerados pelo presidente como aliens perigosos.
Conservadorismo
Em governos de extrema-direita, o ultraconservadorismo é presente. Ele baseia-se em questões familiares e religiosas, que encorajam e exaltam valores antigos e tradicionais de família e sociedade, o que promove o formato patriarcal e heteronormativo. No Partido Republicano esses ideais se fundiram às ações políticas, primeiro no governo de George W. Bush (2001-2009) e continua nos mandatos de Donald Trump, o que traz a ligação entre política e moralidade para o cenário estadunidense.
As ideias conservadoras se tornam “ultras” no momento em que políticas que ferem os direitos humanos e a liberdade de expressão são implementadas. Geralmente, essas políticas são direcionadas a prejudicar grupos minoritários, afetando os direitos civis de mulheres, pessoas não brancas e da comunidade LGBTQIAP+.
Em seu primeiro dia na Casa Branca, Trump decretou que o país reconhecesse apenas dois sexos biológicos – masculino e feminino – que, segundo o presidente, seriam imutáveis e proibiu, em documentos federais, a autoidentificação de gênero. Com isso, qualquer reconhecimento como pessoa trans é invalidada. A medida interrompeu políticas de diversidade que estavam sendo desenvolvidas no país.
Um caso recente, envolvendo o Brasil, é o da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que recebeu um visto americano com a identificação do gênero masculino, desconsiderando os documentos brasileiros que atestam que ela é uma mulher. A parlamentar foi convidada a participar de um evento sobre diversidade na Universidade de Harvard e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Depois do ocorrido, ela não compareceu à palestra. Em nota publicada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, a Ordem Executiva 14168 é ressaltada, afirmando a existência de apenas dois gêneros.
Com essas ações políticas, é evidente que o atual presidente quer reerguer a glória estadunidense. Há uma idealização da identidade nacional pura e transcendente dos valores brancos e cristãos contra aqueles que os ameaçam, que seriam os imigrantes, latinos, mulçumanos, pessoas não brancas e, em resumo, indivíduos entendidos como minorias.
Autoritarismo
Na extrema-direita, a principal característica marcada na história é o autoritarismo. A maior evidência das tendências autoritárias do presidente foi que, ao perder as eleições no final de 2020, não reconheceu a derrota, alegando fraude. Sem qualquer prova e fundamento real, Trump e seus seguidores começaram o movimento “Stop the Steal” (Pare o Roubo). Com o poder das redes sociais para a propagação de desinformação, grupos extremistas, inflados pelos discursos de Donald Trump, se organizaram e invadiram o Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021. Esse evento foi um marco para a história da democracia estadunidense.
A propaganda das redes sociais dissemina o pensamento autoritário de Trump. Esse discurso chega ao público que se identifica com os valores estadunidenses e que acredita em uma nova ordem forte e autoritária.
Na política externa do governo Trump, a imposição dos Estados Unidos a outros países é escancarada, ainda baseada na narrativa mítica do Destino Manifesto que prega a crença na missão estadunidense de nação escolhida. Os discursos imperialistas e intervencionistas de Trump e seus apoiadores são fatores marcantes no início do seu mandato atual.
No começo de seu mandato de 2025, o republicano mencionou uma retomada do Canal de Panamá, declarou que o Canadá poderia ser o 51º estado dos Estados Unidos, além de demonstrar frequentemente o interesse em comprar a Groenlândia.
Em uma entrevista à Fox News no mês de abril, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirma: “O governo (Barack) Obama tirou os olhos da bola e deixou a China tomar toda América do Sul e Central, com sua influência econômica e cultural, fazendo acordos com governos locais de infraestrutura ruim, vigilância e endividamento. O Presidente Trump disse ‘não mais’, vamos recuperar o nosso quintal!”
É indiscutível como o governo atual dos Estados Unidos é baseado no protecionismo, unilateralismo e nacionalismo. Essa defesa da hegemonia estadunidense aparece na imposição de tarifas em especial com a China, uma potência mundial emergente. A medida resultou em uma guerra comercial com aumento de imposto entre os dois países, com a Casa Branca chegando a taxar produtos chineses em 145%.
O governo de Donald Trump se encaminha para a extrema-direta cada vez mais. As semelhanças dos discursos e técnicas de propaganda com o fascismo do século XX são notáveis, ainda que os mecanismos sejam diferentes, devido ao surgimento das redes sociais. Trump e seus apoiadores representam a ascensão de uma nova extrema-direita com um potencial autoritário que a clássica tinha. Não existe mais a tentativa de esconder o pensamento reacionário e imperialista, visto, por exemplo, no gesto controverso de Elon Musk, membro do governo, durante a posse de Trump em 2025.
Considerando o contexto atual de crise no mundo, movimentos autoritários se expandem sob uma nova perspectiva. No século XXI, a extrema-direita renasce não apenas nos Estados Unidos, mas em âmbito global.
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O artigo abaixo editado por Marcele Dias.
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